Quando comecei no Jiu-Jitsu, eu provavelmente não imaginava o quanto essa arte faria parte da minha vida.

No começo, como acontece com quase todo mundo, a preocupação era aprender as posições, entender os movimentos, sobreviver aos treinos e, um dia, conseguir trocar de faixa.

Com o tempo, porém, fui percebendo que o Jiu-Jitsu estava me ensinando coisas que não tinham nada a ver com uma finalização ou uma raspagem. Ele estava me ensinando sobre mim.

Hoje, olhando para a minha caminhada e para tudo o que vivi até aqui, como faixa-marrom de 3º grau, vejo que cada faixa que amarrei na cintura trouxe consigo uma responsabilidade maior. Não apenas dentro do tatame, mas principalmente fora dele.

Porque, para mim, não adianta ter técnica, saber lutar, ganhar campeonato ou ter uma graduação se, como pessoa, eu não estiver evoluindo junto.

O Jiu-Jitsu esteve comigo nos momentos bons e nos momentos difíceis

Também tive momentos muito pesados na minha vida. Momentos em que as coisas ficaram difíceis de verdade e em que eu não estava com a mesma cabeça de sempre.

Houve uma época em que comecei a me afastar dos treinos e, naquele momento, talvez eu nem percebesse o quanto estava precisando deles.

Mas alguém percebeu.

Alguém teve a sensibilidade de não simplesmente aceitar o meu afastamento. Essa pessoa foi atrás de mim, me chamou, insistiu e me puxou de volta para o Jiu-Jitsu.

E isso fez diferença.

Às vezes, olhando de fora, pode parecer que é apenas um convite para treinar: “Vamos treinar hoje?”

Mas quem está passando por um momento difícil sabe que, muitas vezes, esse simples convite pode ser muito maior do que parece.

Eu voltei.

E, aos poucos, fui me encontrando novamente.

O treino voltou a fazer parte da minha rotina. O contato com o tatame, o esforço físico, a disciplina e as pessoas que estavam ao meu lado foram me ajudando a colocar a cabeça no lugar.

Não digo que o Jiu-Jitsu resolveu todos os meus problemas. A vida não funciona assim.

Mas ele me ajudou a continuar.

E eu nunca esqueci que alguém, em um momento em que eu estava mais fraco, teve a atitude de me puxar de volta.

Talvez por isso eu tenha aprendido uma coisa que carrego comigo até hoje: nem sempre precisamos ser a pessoa forte. Às vezes, precisamos permitir que alguém nos ajude.

E, quando conseguimos ficar de pé novamente, talvez seja nossa vez de estender a mão.

Um dia fizeram isso por mim. Depois, eu fiz por outra pessoa.

Um dia fizeram isso por mim. Depois, eu fiz por outra pessoa

Depois que passei por aquela fase e comecei a ficar melhor, aconteceu algo que, para mim, teve um significado muito grande.

Encontrei outra pessoa passando por dificuldades e começando a se afastar dos treinos. E eu me reconheci naquela situação.

Eu sabia como era alguém simplesmente parar de aparecer. Sabia como era perder a vontade, se afastar e talvez achar que não faria tanta diferença.

Então fiz o que fizeram comigo.

Fui atrás. Convidei para treinar. Insisti. Tentei mostrar que ainda havia um lugar para aquela pessoa no tatame.

Talvez eu não tenha conseguido resolver os problemas dela, porque ninguém consegue fazer isso pelo outro.

Mas eu pude oferecer aquilo que um dia ofereceram para mim: presença.

E isso me fez entender que talvez uma das coisas mais bonitas que o Jiu-Jitsu ensina seja justamente essa:

A gente recebe. A gente aprende. A gente cresce. E depois passa adiante.

A satisfação de ver pessoas encontrando seu lugar no Jiu-Jitsu

Outra coisa que me traz uma satisfação enorme é olhar para algumas pessoas que hoje fazem parte da minha caminhada e lembrar de como tudo começou.

Algumas nunca tinham treinado Jiu-Jitsu. Eu simplesmente fiz um convite:

“Vem treinar.”

Talvez, para elas, fosse apenas uma experiência nova. Talvez não imaginassem que aquele convite poderia se transformar em algo tão importante.

Mas vieram. Continuaram.

E hoje eu tenho a felicidade de ver essas pessoas treinando, evoluindo, aprendendo, enfrentando suas dificuldades e construindo suas próprias histórias dentro do Jiu-Jitsu.

Isso me deixa genuinamente feliz.

Porque eu sei o que o Jiu-Jitsu representa para mim. Sei o quanto ele já me ensinou e o quanto esteve presente em momentos importantes da minha vida.

Então, quando vejo alguém que eu convidei começando a gostar, evoluindo e encontrando no Jiu-Jitsu algo que faz sentido para sua própria vida, sinto que estou compartilhando uma coisa que foi muito importante para mim.

E não existe necessidade de reconhecimento nisso.

É simplesmente bom ver.

É bom olhar e pensar:

“Eu convidei essa pessoa um dia. E olha onde ela está agora.”

Às vezes, a pessoa não precisa de uma técnica nova

Essa história não aconteceu somente com quem nunca tinha treinado.

Também tive a oportunidade de conhecer pessoas que já praticavam Jiu-Jitsu em outras academias e que, por algum motivo, não estavam encontrando um ambiente favorável para continuar evoluindo.

Algumas dessas pessoas acompanharam meus treinos e minha rotina através dos meus stories. Viram o ambiente que construímos, a forma como tratamos uns aos outros e o jeito como enxergamos o Jiu-Jitsu dentro da nossa equipe.

E, em algum momento, surgiu uma conversa.

Eu fiz um convite para conhecer a Bunkyo e vir treinar com a gente.

Não foi simplesmente um convite para trocar de academia. Foi um convite para conhecer uma família.

Um lugar onde acredito que o desenvolvimento da pessoa precisa ir além da técnica. Onde o aluno precisa se sentir livre para evoluir, errar, aprender, perguntar, competir ou simplesmente treinar e ser acolhido.

Eu acredito muito nisso.

Porque, às vezes, a pessoa não está precisando de uma técnica nova.

Ela está precisando de um ambiente novo.

De pessoas que a incentivem. De alguém que enxergue seu potencial. De um lugar onde as travas e amarras que estavam dificultando seu caminho deixem de existir.

Quando alguém já tem experiência, já treina há anos, mas sente que não consegue evoluir por causa do ambiente em que está, talvez seja hora de entender que o ambiente também faz parte do desenvolvimento.

E foi muito gratificante poder oferecer essa possibilidade.

Essa pessoa tomou a decisão de sair da outra academia e hoje faz parte da nossa equipe.

E eu fico feliz não simplesmente porque ela passou a treinar comigo. Fico feliz porque vejo essa pessoa se desenvolvendo. Porque vejo que ela encontrou um ambiente onde pode continuar sua caminhada.

Para mim, isso é muito maior do que trazer alguém para uma equipe.

É ajudar alguém a recuperar o prazer de treinar.

É ver alguém voltar a acreditar no próprio potencial.

É perceber que, às vezes, uma conversa e um convite podem mudar o rumo da caminhada de alguém.

Cada pessoa tem seu tempo

Cada pessoa tem seu tempo.

Alguns vão competir, outros não. Alguns vão chegar à faixa-preta, outros talvez parem no caminho.

Mas todos merecem ter a oportunidade de encontrar um ambiente onde possam evoluir.

E é isso que eu quero para a Bunkyo.

Uma academia onde o Jiu-Jitsu seja levado a sério, mas onde as pessoas sejam levadas ainda mais a sério.

Onde a graduação não seja usada para diminuir ninguém.

Onde quem está começando seja respeitado.

Onde quem já tem experiência continue tendo espaço para aprender.

E onde o desenvolvimento pessoal caminhe junto com o desenvolvimento técnico.

Todo graduado já foi faixa-branca

Talvez essa seja uma das coisas que mais penso hoje.

Todo faixa-preta já foi faixa-branca.

Todo faixa-marrom já teve dificuldade para aprender o básico.

Todo graduado já tomou sufoco.

Todo mundo que hoje parece confortável no tatame já teve um primeiro dia.

Por isso, não consigo enxergar a graduação como um motivo para alguém se sentir superior.

Muito pelo contrário.

Quanto mais tempo tenho de Jiu-Jitsu, mais entendo que minha responsabilidade aumenta.

Se hoje tenho mais experiência que um faixa-branca, isso não me torna melhor do que ele. Significa apenas que estou alguns passos à frente naquela caminhada.

E, se estou alguns passos à frente, tenho a obrigação de ajudar quem está começando a caminhar.

Não vejo sentido em usar a graduação para humilhar alguém. Não vejo sentido em usar conhecimento técnico para machucar alguém que ainda está aprendendo.

Treinar forte faz parte.

Ser competitivo faz parte.

Ser cobrado faz parte.

Mas respeito também faz parte.

Saber controlar a força, a técnica e o próprio ego é, para mim, uma das maiores demonstrações de maturidade que um graduado pode ter.

A faixa que eu amarro na cintura também me cobra

Hoje, quando amarro minha faixa, não penso apenas no que aprendi tecnicamente.

Penso também em tudo que veio junto.

Nas pessoas que conheci. Nas pessoas que me ajudaram. Nos momentos em que pensei em desistir. Na pessoa que me puxou de volta.

Nas pessoas que eu depois tentei ajudar. Nas pessoas que comecei a treinar. Nas pessoas que chegaram de outras academias buscando um ambiente diferente.

Nos amigos que começaram comigo. Nos alunos e parceiros que vejo evoluindo.

E penso principalmente na responsabilidade de ser alguém que agrega.

Porque, depois de tantos anos, entendi que o Jiu-Jitsu não é apenas sobre saber dominar alguém.

É também saber dominar o próprio ego.

É saber ouvir.

É saber perder.

É saber ganhar sem humilhar.

É corrigir sem diminuir.

É ensinar sem fazer o outro se sentir inferior.

É perceber quando alguém precisa de um empurrão para continuar.

O verdadeiro aprendizado está fora do tatame também

Eu posso passar cinco minutos tentando controlar alguém durante um treino.

Mas, quando saio da academia, preciso saber controlar minha raiva, minha ansiedade, meu orgulho e minhas atitudes.

É aí que o Jiu-Jitsu realmente me cobra.

De que adianta eu ter uma faixa na cintura se não consigo respeitar as pessoas?

De que adianta saber lutar se não sei conversar?

De que adianta vencer no tatame se estou sempre perdendo para o meu próprio ego?

Quanto mais tempo passa, mais eu entendo que a luta mais difícil continua sendo contra nós mesmos.

E essa luta não acaba quando tiramos o kimono.

Hoje eu ainda sou aluno

Mesmo com tantos anos de Jiu-Jitsu e com a graduação que conquistei, continuo me sentindo um aluno.

Ainda tenho muito para aprender. Ainda erro. Ainda tenho dias bons e dias ruins. Ainda existem coisas em mim que preciso melhorar.

E talvez seja exatamente isso que faça o Jiu-Jitsu ser tão especial.

Ele nunca deixa a gente chegar ao ponto de pensar que sabe tudo.

Sempre existe alguém para nos ensinar alguma coisa.

Às vezes, é um professor.

Às vezes, é um companheiro de treino.

Às vezes, é um faixa-branca que acabou de chegar.

E, às vezes, é a própria vida.

A evolução não está apenas na cor da faixa

Depois de tudo que vivi, uma coisa ficou muito clara para mim: minha evolução no Jiu-Jitsu não pode ser medida apenas pela cor da minha faixa.

Ela precisa aparecer na pessoa que estou me tornando.

Se hoje consigo ajudar alguém que está começando, se consigo respeitar quem ainda está aprendendo, se consigo estender a mão para alguém que está pensando em desistir e se consigo compartilhar com outras pessoas aquilo que o Jiu-Jitsu me ensinou, então talvez eu esteja realmente evoluindo.

No fim, medalhas ficam guardadas. Troféus acumulam poeira. Faixas um dia serão trocadas.

Mas as pessoas que passaram pela nossa vida e aquilo que fizemos por elas permanecem.

Eu tive alguém que me puxou de volta quando eu precisei.

Depois, tive a oportunidade de fazer isso por outra pessoa.

Convidei pessoas que nunca tinham treinado e hoje tenho a felicidade de vê-las evoluindo.

Também tive a oportunidade de convidar pessoas que já treinavam, mas que estavam precisando encontrar um ambiente diferente para continuar crescendo.

E talvez seja isso que eu queira levar comigo daqui para frente:

Continuar aprendendo, continuar treinando, continuar respeitando e, sempre que puder, ajudar alguém a continuar também.

Porque, no final das contas, o Jiu-Jitsu nunca foi somente sobre mim.

Foi sobre as pessoas que caminharam comigo.

Sobre as que me ajudaram quando eu precisei.

Sobre as que confiaram em um convite meu.

E sobre aquelas que, de alguma forma, eu também posso ajudar.

“O verdadeiro Jiu-Jitsu não termina quando tiramos o kimono. Ele continua na maneira como tratamos as pessoas quando voltamos para a vida.”

Alexandre Sotero

Faixa-marrom — 3º grau